segunda-feira, 9 de novembro de 2009

X

Uma perspectiva que se adéqua aos sonhos platônicos de imutabilidade. Estarei eu tão tresloucada ao negar essa verdade alheia? A escrita pode não ser acidental? Um laranjal mutante é hoje o que espreito pela janela, mas talvez a mutação prescinda de transfiguração do essencial. Onde estarei? “Eu não posso explicar-me, eu receio, Senhora”, respondeu Alice, “porque eu não sou eu mesma, vê?”

domingo, 8 de novembro de 2009

2077

Antes fosse gato. Agora a escuridão me convenceu que não se apagará. Deitei na semana passada e não pude dormir. São edifícios que me acolhem e me aniquilam, todos tem seus números. Nunca entendi os diários porque minha vida é desconstinuadamente me outrar. Deveria escrever quantas letras? Ontem tive um sonho, sonhei que escrevia um livro repleto de colagens alheias. E os cigarros continuam ser a única constante. Algo na oralidade, as palavras também permanecem, só que não se encontram enroladas, mas devem ter um preço crescente a se pagar. Afinal, as palavras não se juntam sozinhas? Meteoros atingem o pequeno planeta disforme, e todas as galáxias estão dispersas em lugar nenhum. Se há lugar é vizinhança, e não perguntarei o nome de nenhuma das faces que continuamente atravessam minha porta.

A Educação e Os Espaços.

Pensar na educação a distância exige que não a coloquemos em contraposição ao ensino presencial, como se trabalhássemos com dois conceitos fechados e opostos de possibilidade de ensino. Existem diferenças na própria prática, discurso e conceituação do EAD.
A forma de utilização do meio que lhe dará seus sentidos, ao contrário do que uma o pré-conceito poderá nos fazer crer: poderá, por exemplo, propagar a idéia da utilização da internet como progresso (pela popularização de verdades científicas), ou como um espaço educacional que necessariamente massifica o conhecimento, ou que necessariamente estamos indo ao encontro do dialógico pelo EAD, pois a internet promoveria a horizontalidade do que antes era estrutura hierárquica.
Pensando na necessidade de desconstrução de um modelo assimétrico de ensino para destituição do poder da abordagem autoritária, encontramos um processo educacional de construção de sentido a partir da intersubjetividade na libertação de possibilidades e intensidades afetivas.
Neste sentido, há uma potência revolucionária na utilização das novas tecnologias como meio de construção de múltiplas criações de sentidos, de afetações intertextuais deste eu espiral-mutante do eterno retorno, por termos aí um espaço de interação.
Há aí um espaço novo, um espaço que é todo signo, que é todo meio, que nos permite a comunicação em horários e/ou espaços não simultâneos, que nos permite trocas e encontros múltiplos com uma inimaginável quantidade de outros – textos, sons, imagens, etc. - mas que exclui certamente a interação dos corpos, e a afetação pelos corpos. Características especiais de um espaço específico que podemos percorrer sem nos fixar.
Sendo estas características deste espaço, devemos pensar em quais situações será conveniente a sua utilização e de que forma o habitaremos e o construiremos, sendo a internet parte fundamental na dinâmica global do tempo e não podendo ser desprezada por preconceitos gerados pela novidade deste espaço, que diverge do espaço dos corpos ou das folhas.
A partir do que o espaço virtual nos fornece como ferramenta, o utilizamos com nossa própria visão de mundo e, assim, o construímos como espaço educacional com nossos próprios pontos de vista: O aprisionamento em verdades fixas, em assimetrias hierárquicas, o potencial revolucionário, a libertação do múltiplo, a massificação, etc., são possibilidades dependentes da utilização do espaço, como também – embora, fique claro, com suas particularidades especiais características- pode ser o espaço da sala de aula ou a leitura.
Assim, encontramos espaços que divergem nas possibilidades de expressão, que possuem características distintas, mas que estão aí e podem ser utilizados para a afetação intersubjetiva, para os agenciamentos eu - mundo/ eu - outro, para que abandonemos o eu-fixo, aprisionado em monoperspectivas bilaterais e abracemos o devir, nos desterritorializando em diversos espaços – a sala, o livro, a internet, a conversa, a escrita, etc.
Não podemos determinar se a utilização é favorável pelas características particulares de um espaço, mas pelo modo que estes espaços são construídos. É necessário que pensemos nas potencialidades sem que se anule um espaço pelo outro, sem que se chegue a um espaço-ideal, aquele que é o verdadeiro espaço da educação. Assim, vivenciaremos o múltiplo para uma existência expressiva, ativa, criadora.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

II.

Minha reflexão é mirar o espelho até desfazer meu ser e aniquilar a imagem mimética.

III.

Olhou para o chão. Seus pés naufragaram nas águas estrangeiras que invadiram sua sala. Há dias não podia dormir. O medo de faltar-lhe o ar, as bolhas invadindo-lhe a pele. Talvez nada lhe pertencesse. Ainda assim havia: bolhas, escuridão, calor, sede. Ainda assim não podia repousar em canto algum. E seu corpo doeria, como doíam os dias. Olhou para o chão e nada. O calor haveria evaporado toda aquela poça, assim, tão prontamente? Mas como haveria água desperdiçada pelo chão? Se houvesse alguma já teria enfiado pela garganta. Jogou-se na esperança de encontrar algum resquício, e lambendo a poeira convenceu-se do delírio.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Gênesis

E ele disse:

Não é o verbo o que canto nos múltiplos cantos do crepúsculo.

Neste amanhecer que nem é amanhecer, a luz que me acorda tampouco é luz: Tudo que sei sobre a luz é que posso e não posso criá-la.

É este o não-lugar em que o verbo não se permite conjugar.

É este o não-lugar em que podemos não nos fixar e, assim, viver.

No início não foi oposição macho e fêmea, o duplo se fez em mim e não excluí a sombra. Caminhei pelos campos e cavernas sem aceitar ou negar um território sequer, e sem ter criado solo sagrado, prossegui na horizontalidade do caminho sem destino: Sempre e nunca inicio. Não reparti em nomes, não reparti em antíteses, não reparti o paraíso e não nos reparti. Assim, percorremos os infinitos espaços que os corpos acabam por ocupar no instante.

Os lugares se constroem, é tão impossível se estar em um lugar quanto estar em lugar algum. Os lamentos se calam porque desejamos o desejo. Nossa vida é o improviso de quem nunca viveu o mesmo em dois tempos distintos.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

doutrina banheiro

Uma questão de querer agradar papai, o macho que me penetrava me enfiando o amor guela abaixo. Palavras, a espera das palavras, ficar espreitando uma aprovação sair daquela boca. Como você está bonita, Maria Lúcia. A autorização do ícone para que esse eu emerja dos esgotos e possa se dizer Maria Lúcia. Aconteci na aceitação daquele rosto-modelo-do-que-é-maior– quando me disse passei a ser, prossiguindo em repetição de ser-palavra-dada, ou nem dada, enfiada com o amor bem dentro daquele corpo outro que não se fez meu.
Era a filha, mulher, amante, a serviço da figura déspota que me concebesse. Palavras que fodem. João, Gustavo, Fábio, Matheus, Danilo, Thomas, Marcelo. Nomes – jamais cometi o anátema de transmutar seus nomes-no-tempo, traição terrível: des-singularizar, desfigurar, despersonaficar Deus, em cada uma de suas mono-faces: Molde-me e assim ficarei, me deterei, pararei fixa até a próxima palavra de ordem, para que não digas que estou mudada, que fugi ao seu controle! Não caguei fora do jornal que me foi colocado, fingindo que nunca houve jornal e que não existia um corpo, meu corpo, o corpo que obtenho: permissão para a existência-buceta & a auto estima de lindos cabelos para enfeitar a sala.
-Oh, opróbrio! Oh, infâmia!-
Como um animal doméstico acaba por fazer suas bobagens, fui expulsa para o meio da rua. Disse para O MEIO DA RUA! Quando fui atropelada - Trombei o cu do bode. Minhas tripas saíram de mim e se conectaram ao chão, ao ânus, ao que pudessem se conectar. Minha cabeça que cuspiu Maria Lúcia para aquele mundo dos filhos das árvores, deus-espelho, nunca mais foi denominada, e prossigo assim, de ponto a outro, por onde minhas tripas se satisfazem, por onde o ânus, um ânus, - sem se fixar: meu, eu, o bode, quem quer que sejamos - se criar e meu corpo – já não cabelos-buceta, mas todos os órgãos – sensação - afetamentos – sobe no cume alto das montanhas para cantar com Whitman e quem mais vier a ser.